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puta que partiu

10 janeiro 2011 7 comentários

empaquei diante de minha inoperância linguística, de minha falta de léxico ou constância de elos quaisquer a me interromper. estava defronte do maior dilema, cavar indícios de quando, do de vez em quando se tornavam mais imprecisos aqueles encontros, como água fortuita a escorrer por entre minhas ânsias!

encantei-me com ele depois de um beijo; depois dele estar casado e de se ter declarado em estado abismal; e eu em abissal delírio pré-coito, pois ao se dar o ato, declarou:”não posso te amar!”; me atirei às feras que me corroem os fígados e me põem em estado de sítio; sitiado por sua lembrança anêmica e árida, casuística e expressionista! puro progressivo som de alta potência a emanar solos de míseros segundos…o beijo foi a caminho de minha casa, e eu nem acreditei em nada, nem precisei de nada mais do que daquela descoberta, sua boca a travar salivas, e mensagens náufragas,

então se evolou me deixando tal puta largada, nem disse tchau, somente ”a gente se vê por aí”; se foi e me pôs de cabeça baixa, de dorso curvado e pulmões em espanto; de repente, começou minha via crucis de desejos e ternuras, arquitetando o próximo contato labial e demais contatos imediatos; paria as horas mortas em que não o via, quando seus cabelos longos não pesavam em nossas culpas adúlteras; me esqueci de pensar muito a pedido dele, me esqueci também do auto-flagelo ao qual sempre me rendi, transformei tais esperas em dermes e tez alva; ele nunca havia estado com outro homem em intimidades, e eu nunca havia sido assim, o deflorador em atitude casta, purificação e purgatório…

quis fazê-lo pleno me fazendo assim também; quis namorar com pássaros cantando sobre nossas cabeças; quis expor aos plebeus aquele meu amor feito de vírgulas e,  eventualmente, a caminho de minha casa, nas saídas dos bares, seres notívagos, nos entregávamos à lascívia; ele se deixava levar por uma paixão dita antiga, lá dos primeiros anos de segundo grau: éramos adolescentes em ebulição! ele usava drogas, bebia muito, se entregava às esbórnias noites seguidas, então já me senti intruso; já me pus em interrogatório sob luzes que desmascaravam a minha semvergonhice; já me fiz ausente e sem vontades; já me coloquei na retaguarda e já me impus obstáculos, mas, por pura perda das rédeas, me nomeio vassalo, parvo a serviço de meu lorde!

e era assim, bastava um convite seco preu estar de novo entregue ao seu corpo; ouvíamos música alta pra não acordar as pessoas da casa dele; sempre, na madrugada, eu me largava de táxi e, no caminho, ia desenhando, na mente, o que seria de mim depois daquele encontro; eu já estava apaixonado, mas proibido por ele de estar assim! resolvi, por fim, expurgar um vômito em versos e enviei:

caro filho da puta,

escrevo sobre teu corpo

por onde deito meus músculos;

em vão, exalo bento suor;

em ponto de catástrofe,

um réquiem delírio,

a sorver gotas de lama,

no entanto, meu antro é este templo que tu carregas desde a gênese…

fuck me never!

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rodrigo barata é professor de língua portuguesa, redação e literatura e escritor; tem livros de poemas e de literatura infantil; o conto if i fell estará no seu novo livro “três e quinze”