puta que partiu
empaquei diante de minha inoperância linguística, de minha falta de léxico ou constância de elos quaisquer a me interromper. estava defronte do maior dilema, cavar indícios de quando, do de vez em quando se tornavam mais imprecisos aqueles encontros, como água fortuita a escorrer por entre minhas ânsias!
encantei-me com ele depois de um beijo; depois dele estar casado e de se ter declarado em estado abismal; e eu em abissal delírio pré-coito, pois ao se dar o ato, declarou:”não posso te amar!”; me atirei às feras que me corroem os fígados e me põem em estado de sítio; sitiado por sua lembrança anêmica e árida, casuística e expressionista! puro progressivo som de alta potência a emanar solos de míseros segundos…o beijo foi a caminho de minha casa, e eu nem acreditei em nada, nem precisei de nada mais do que daquela descoberta, sua boca a travar salivas, e mensagens náufragas,
então se evolou me deixando tal puta largada, nem disse tchau, somente ”a gente se vê por aí”; se foi e me pôs de cabeça baixa, de dorso curvado e pulmões em espanto; de repente, começou minha via crucis de desejos e ternuras, arquitetando o próximo contato labial e demais contatos imediatos; paria as horas mortas em que não o via, quando seus cabelos longos não pesavam em nossas culpas adúlteras; me esqueci de pensar muito a pedido dele, me esqueci também do auto-flagelo ao qual sempre me rendi, transformei tais esperas em dermes e tez alva; ele nunca havia estado com outro homem em intimidades, e eu nunca havia sido assim, o deflorador em atitude casta, purificação e purgatório…
quis fazê-lo pleno me fazendo assim também; quis namorar com pássaros cantando sobre nossas cabeças; quis expor aos plebeus aquele meu amor feito de vírgulas e, eventualmente, a caminho de minha casa, nas saídas dos bares, seres notívagos, nos entregávamos à lascívia; ele se deixava levar por uma paixão dita antiga, lá dos primeiros anos de segundo grau: éramos adolescentes em ebulição! ele usava drogas, bebia muito, se entregava às esbórnias noites seguidas, então já me senti intruso; já me pus em interrogatório sob luzes que desmascaravam a minha semvergonhice; já me fiz ausente e sem vontades; já me coloquei na retaguarda e já me impus obstáculos, mas, por pura perda das rédeas, me nomeio vassalo, parvo a serviço de meu lorde!
e era assim, bastava um convite seco preu estar de novo entregue ao seu corpo; ouvíamos música alta pra não acordar as pessoas da casa dele; sempre, na madrugada, eu me largava de táxi e, no caminho, ia desenhando, na mente, o que seria de mim depois daquele encontro; eu já estava apaixonado, mas proibido por ele de estar assim! resolvi, por fim, expurgar um vômito em versos e enviei:
caro filho da puta,
escrevo sobre teu corpo
por onde deito meus músculos;
em vão, exalo bento suor;
em ponto de catástrofe,
um réquiem delírio,
a sorver gotas de lama,
no entanto, meu antro é este templo que tu carregas desde a gênese…
fuck me never!
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rodrigo barata é professor de língua portuguesa, redação e literatura e escritor; tem livros de poemas e de literatura infantil; o conto if i fell estará no seu novo livro “três e quinze”









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Po muito legaw mesmo Xoxo
Muito bonito. É impossível nâo se reconhecer nesse texto.
Oi, Rodrigo.
O seu conto oscila entre dois pólos: poético e erótico. Recordei-me de um trecho do Bataille em ‘O erotismo’; “Para ir até o fim do êxtase em cujo prazer nos perdermos, devemos sempre colocar o seu limite imediato: o horror. (…) Não alcançamos o êxtase, a não se ele não estivesse tão distante, na perspectiva da morte e do que nos destrói.”
Se no começo percebermos o ‘encantamento’, no final vemos a oscilação entre desejo e a destruição de si e do ‘objeto amado’.
Por fim, recordo-me de Genet em ‘Diário de um ladrão’ – “A minha coragem consistiu em destruir todas as habituais razões de viver e em me descobrir em outras’.
Daqueles contos que se lê sem pausa para respirar. Seu estilo, Barata. Adoro!
PS: esse tipo de amor não tem gênero, qualquer um se identifica com um amor proibido e não priorizado pelo ser amado. qualquer um pode já ter saído de fininho na madrugada para dentro de um taxi depois de um convite seco.
Barata, não sei por que motivo eu me vi, e te vi também, nessas palavras. Esse teu conto é como uma corrida em alta velocidade com um ponto de chegada distante e impalpável. Cheguei no fim dele sem fôlego, trôpego de lembranças…
Rodrigo,
teus contos sao como esculturas, aqui e ali encontra-se certas “curvas e texturas” – “abissal delirio pre-coito”;”aquele meu amor feito de virgulas”; “e, no caminho, ia desenhando, na mente, o que seria de mim depois daquele encontro” – tao bem executadas que quer-se toca-las com as maos, pois elas parecem concretas, reais…
(desculpa a ausencia de acentos)