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Gays casados também merecem respeito

23 janeiro 2011 2 comentários

Por Kiko Riaze

Vou contar agora um fato real. Aconteceu há poucos dias num barzinho do centro do Rio após o expediente. Amigos de trabalho, fofocas de empresa, papo furado daqui, cervejinha gelada de lá até que chegou aquele tão conhecido momento em que o álcool toma conta das mentes e o efeito etílico vira álibi para falar aquilo que sempre se quis, mas nunca se teve coragem.

Foi nesse momento que o garanhão do grupo falou um monte de sacanagens para duas moças que estavam na mesa ao lado dele. Uma era lésbica assumida e a outra era hétero, ambas jovens e muito bonitas. Apesar da descontração, as duas moças pareciam estar ficando incomodadas com as cantadas inconvenientes do rapaz e, em determinado momento, resolveram se levantar com a desculpa de ir ao banheiro.

Outro amigo de trabalho aproveitou a ausência das moças e repreendeu o colega garanhão:

– Cara, pega leve com a Marcinha. Ela é casada. Respeita a moça.

Foi aí que o espírito militante baixou em mim e eu me meti no assunto:

– Peraí ! – falei. – A Marcinha é casada, sim, mas a Rita também é. Por que uma merece respeito e a outra não? Só por que a outra é lésbica?

Pronto. Foi o suficiente para gerar uma polêmica que rendeu muitas rodadas de chopp e revelou que ainda há muitos conceitos acerca da homossexualidade que precisam ser revistos. Principalmente a respeito da imagem que a sociedade faz dos gays.

Para além da hipocrisia, a verdade é que a imagem do homossexual sempre esteve imbuída em estereótipos e conceitos muitas vezes errôneos. Para a sociedade, o gay é promíscuo, libertino, transgressor, infiel, sem vergonha e mais uma dezena de adjetivos de fazer qualquer carola torcer a boca.

O que muita gente ignora é que gays muitas vezes levam uma vida tão convencional quanto a de um heterossexual. É óbvio que existe todo tipo de gays, assim como existe todo tipo de héteros, mas há uma enorme parcela de homossexuais que é totalmente inserida dentro dos padrões sociais: sonha em casar-se, ter filhos, constituir uma família – tudo como manda o tão nobre figurino da sociedade.

A diferença é que estas “famílias gays” trazem para si todo o estigma que os seus componentes já sofrem individualmente. A sociedade simplesmente não respeita a união entre homossexuais. Começa pelos direitos negados pela Lei e vai até uma corriqueira diferença de tratamentos que se dá entre um casal gay e um casal hétero no dia a dia.

O que aconteceu naquela mesa de bar foi um grande exemplo disso.

Rita é uma moça exemplar, direita, casadinha. Mas só o fato de ser lésbica tirou do casamento dela o status e o respeito que o casamento da Marcinha parece ter diante dos colegas de trabalho.

Respeito é bom e todo mundo gosta!

As pessoas precisam saber que uma relação entre homossexuais muitas vezes é mais harmoniosa, equilibrada e digna do que muitas relações héteros que existem por aí, com muito mais cumplicidade justamente pelas dificuldades que as cercam. E que em outros aspectos é tudo muito parecido.

Essa diferença de tratamento precisa acabar. Mas é claro que os gays e lésbicas têm que fazer a sua parte, exigindo respeito e levantando a voz quando algo parecer injusto e não simplesmente aceitar aquilo que parece convencional. Toda transformação acontece de dentro para fora. Por isso, uma mudança de postura dos homossexuais diante da sociedade já pode ser um bom começo.

Precisamos nos valorizar primeiro para que os outros nos valorizem depois.

Beijos a tod@s

* Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião do Pará Diversidade.