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Por que o sangue dos gays não presta?

16 fevereiro 2011 2 comentários

Por Kiko Riaze

Há alguns anos, eu e um namorado fomos doar sangue para a mãe de uma amiga, que estava necessitada de transfusão. Passamos individualmente por uma entrevista de costume feita por uma agente de saúde do HemoRio para conhecer os nossos hábitos sexuais, histórico de envolvimento com drogas, etc…

Ao final da entrevista, eu fui considerado apto a doar sangue, mas meu namorado não. Quando saímos, conversamos a respeito da entrevista e descobrimos que um pequeno detalhe fez toda a diferença: meu namorado, ao ser questionado, confidenciou à agente de saúde que era gay e foi descartado. Mas eu não, porque eu menti.

Fiz isso justamente por saber que só pelo fato de ser gay eu já receberia o carimbo do “impedimento definitivo” e a vontade de ajudar à paciente que precisava de transfusão iria por água abaixo.

Para o Ministério da Saúde, todo gay faz parte de um grupo de risco de transmissão de HIV, não importa o quão saudável seja o seu estilo de vida.

Por que isso ainda acontece, uma vez que o meio científico já não mais considera a idéia de “grupos de risco” ?

Será um tipo de discriminação em forma de Lei?

O assunto deste post foi sugerido pelo leitor Gabriel, de São Paulo que, em nossa troca de e-mails, me apresentou a sua opinião a respeito do tema. Segue abaixo:

“Eu penso que esta pergunta (sobre a orientação sexual durante a triagem) deveria ser feita apenas para ter uso exclusivamente estatístico de doadores, e não para categorizar o tipo de sangue.

Sejamos práticos. Se o possível doador não bebe, não fuma, não frequenta dark-rooms, não faz de seu quarto um prostíbulo, exercita-se, possui alimentação saudável, não usa drogas (muito menos injetáveis), ele tem todos os requisitos para ser um doador. O que o fato de ser gay vai influenciar neste resultado?

…Minha orientação está relacionada com meus hábitos de vida…

Se substituirmos o termo “gay” os dois parágrafos anteriores por “héteros”,”católicos”, “evangélicos”, “jovens”, “adultos”, veremos que todos esses grupos sociais também possuem grandes parcelas que formam os grupos de risco. Mas também existem aqueles que não estão.

Portanto, só para finalizar minha opinião, eu sei que existe uma parcela no meio LGBT que está sob condições de risco. Esta parcela, sim, está proibida de doar sangue porque responde ‘sim’ às questões de uso de drogas injetáveis, sexo não-seguro e poligamia exagerada. Mas daí a generalizar os atos e hábitos de alguns para um grupo inteiro, apenas porque existem indivíduos sob situações de risco, é um pensamento que se torna equivocado e passa a constituir um preconceito.”

Faço das palavras do Gabriel as minhas palavras e assino embaixo.

A questão fundamental é: o Ministério da Saúde deve avaliar a qualidade do sangue doado e excluí-lo caso seja necessário.  Mas não deve excluir as pessoas com base em preconceitos e estigmas do passado e nem tirar delas o direito de serem solidárias.

Esta aí mais uma questão que deve ser amplamente discutida. Chega de preconceito!

(Saiba mais sobre Kiko Riaze aqui)

* Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião do Pará Diversidade.