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As rugas gays

17 março 2011 Um comentário

Por Kiko Riaze

Tudo o que nasceu vai morrer, tudo o que foi reunido será espalhado, tudo o que foi acumulado terá fim, tudo o que foi construído será derrubado, e o que esteve nas alturas será rebaixado… A vida é impermanência.

Siddartha Gautama, o Buda (563 a.C – 483 a.C)

Nada nesta vida é permanente, exceto as mudanças.

Heráclito de Éfeso, filósofo grego (540 a.C -475 a.C)

Está aí uma grande verdade: nada é permanente nesta vida. Absolutamente nada. Nenhum fenômeno, nenhuma emoção, nenhum estado de ser. Tudo passa, inclusive nós mesmos. Sabemos disso, mas nos negamos a pensar a respeito. Preferimos nos distrair com o agora, como se o “agora” fosse a nossa realidade permanente. Mas não é.

Aparentemente, não há mal algum em se distrair com o “agora”, o problema é que quando as mudanças vêm, nós acabamos sofrendo mais do que deveríamos por tê-las ignorado durante todo tempo.

Um bom exemplo disso é a velhice. Quase todo mundo tem medo de envelhecer e rejeita a idéia de ser/estar velho, embora todos saibam que a velhice é inevitável a todos os seres. Mesmo assim é um grande tormento para a maioria. Gays, pelo que observo, parecem temer ainda mais.

Certa noite eu estava num point gay de Niterói e, no meio da muvuca, me chamou a atenção um cara sem camisa, exibindo seus músculos todo posudo, empinado e depilado. Nada de tão incomum em se tratando de um point gay no Rio de Janeiro, com a diferença de que ele já era um homem de uns 50 anos e estava me chamando atenção não pelo seu físico (que realmente estava em forma), mas pelo seu rosto alteradíssimo por muitas – e visíveis – cirurgias plásticas. Ele era uma coisa realmente estranha: rosto esticadíssimo, botox, boca de coringa com lábios à la Angelina Jolie e lentes de contato “gritando” nos olhos. Todo mundo olhava e comentava quando ele passava.

Eu o fiquei observando por uns instantes e, naquele momento, enxerguei nele um homem completamente desesperado, se agarrando com todas às forças a uma juventude que já está se esvaindo. Aquele homem, certamente, se recusa a envelhecer. Deve estar atormentado com as mudanças que o espelho joga na cara dele, implacavelmente, dia após dia.

Mas eu o entendo bem. Ele deve saber perfeitamente que a cultura gay é cruel com os idosos, que a beleza e a juventude parecem se sobrepor a qualquer outro valor, que gays idosos são ridicularizados pelos próprios gays e que, por causa disso, a solidão na velhice é iminente.

Eu sei disso porque faço parte deste mundo, também tenho minhas preferências e os meus medos. Mas eu compreendo o princípio da “impermanência” de que falavam as filosofias de Heráclito e Buda, e sei que a beleza da juventude vai passar para dar lugar a outros tipos de atrativos, muito mais consistentes e valiosos.

Assusta um pouco, sim, mas é preciso aceitar para não sofrer. Faz parte da nossa natureza. Vou assimilando isso dia após dia, para que eu não seja como aquele homem plastificado da praça e me transforme numa caricatura de mim mesmo.

Todos nós precisamos aceitar que tudo passa. Acho que só desta forma poderemos ter uma velhice tão plena e satisfatória quanto a tão exaltada juventude. E assim, aprender a respeitar os outros também.

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* Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião do Pará Diversidade.