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Bolsonaro, os gays e a estupidez humana

16 maio 2011 Nenhum comentário

Por Kiko Riaze

Vamos celebrar a estupidez humana…

Assim cantou o saudoso Renato Russo em “Perfeição”. Uma obra-prima. Um tapa na cara dos conformados e dos impassíveis. A bestialidade do homem exposta numa bandeja para que possamos saboreá-la… E nos engasgar com ela.

Vamos celebrar

A estupidez do povo

A ganância e a difamação

Vamos celebrar os preconceitos…

E, no fim, comemorar como idiotas! É o que a maioria das pessoas têm feito desde sempre. Renato Russo não estava errado. Apesar dos muitos avanços, a essência do homem de hoje ainda é medieval. Acata-se a indecência dos poderosos com uma cegueira voluntária, engole-se as imposições religiosas sem se questionar, curva-se diante dos desmandos ditatoriais como um fantoche numa arena de circo.

A União Civil gay recentemente reconhecida pelo STF foi um avanço. Podemos comemorar, sim. Mas tenhamos em mente que ela só se deu por que o Governador do Rio, Sérgio Cabral, iniciou a ação. Ela não partiu dos grupos gays. Os mais interessados no assunto não foram às ruas pleitear os seus direitos. O assunto “correu por fora” do Congresso Nacional. Se tivesse sido discutido pelos deputados e senadores “representantes do povo”, certamente teríamos perdido, pois o Congresso está empesteado de gente homofóbica com cabeça miúda de Idade Média.

Vide o episódio grotesco envolvendo os defensores do projeto de Lei que criminaliza a homofobia e os evangélicos somente uma semana após a aprovação da união civil gay. No Brasil, o progresso e o retrocesso digladiam-se como um espelho límpido da mentalidade da nossa gente. Entrem neste link do Yahoo Notícias e vocês terão uma noção clara do que estou tentando dizer:

Evangélicos barram votação de projeto contra homofobia

Reparem como a grande maioria dos mais de 800 comentários de leitores é agressiva, preconceituosa e explicitamente homofóbica. Muitos incitam a violência e a morte aos gays e nem sequer são bloqueados pelo moderador do site. Liberdade de expressão??… Bem, incitar a violência é crime e a liberdade de expressão é cerceada pela Lei, é bom lembrar. O Yahoo deveria saber.

Mas leiam mais atentamente e vocês perceberão uma serie de reclamações de leitores pró-gays que não tiveram seus comentários aceitos. Um deles é do leitor deste blog, Fernando, que sugeriu esta pauta e me mandou um e-mail reclamando da parcialidade daquele site de notícias. Ele escreveu um comentário bem redigido sobre a laicidade do Estado e do perigo de se ter religiosos influenciando nas decisões legais. No entanto, o Yahoo, simplesmente, não publicou. Ora, um site ético de notícias deveria ser imparcial. Ou será que o Yahoo é mais um veículo de disseminação do preconceito orientado por evangélicos?

Para o leitor Fernando, este é um indicativo de que as coisas vão mal. Eu concordo com ele. Na medida em que os gays avançam em suas conquistas, os opositores também se erguem na mesma ou em maior intensidade. A bancada evangélica é poderosa e se movimenta com seus Bolsonaros, Magnos Maltas e Malafaias da vida… E nós? O que temos feito para mostrar à sociedade que somos vítimas, e não vilões? De que maneira temos agido para nos salvar das chamas da fogueira desta nova Inquisição?

Uma foto de homem sem camisa no Facebook recebe milhões de “curtiu” e centenas de comentários dos facegays de plantão. Mas um link que eu postei há poucos dias sobre um abaixo-assinado contra a pena de morte aos homossexuais em Uganda recebeu apenas dois ou três “curtiu” e apenas um comentário… O que importa, afinal?

Será que a grande massa gay deste país não dá a mínima? Será que as pessoas acham que está tudo bem?

Lembro-me agora de uma frase em uma cena do clássico Kuhle Wampe, de Bertold Bretch, que eu assisti na aula de Estrutura Dramática na última 4a feira.

“Quem pode mudar o mundo?” – perguntou um personagem numa antológica discussão política dentro de um trem.

“Quem não está satisfeito com ele” – respondeu o outro.

Utópico?

Não… Se todo mundo pensar como a personagem de Bretch e agir, fazendo a sua parte, “o que vem é Perfeição”…

(Saiba mais sobre Kiko Riaze aqui)

* Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião do Pará Diversidade.