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Não sou moeda de troca, não!

27 maio 2011 Nenhum comentário

Por Kiko Riaze

Assim que saiu a notícia que o Kit Anti-homofobia (chamado de kit gay pelos opositores) havia sido suspenso por ordem da Dilma, eu passei um e-mail para meus caríssimos colaboradores concatenarem as suas ideias a fim de que surgisse um post sobre o tema. Acabou não rolando. Depois, eu mesmo pedi que esquecessem o assunto quando recebi um e-mail da lista do Toni Reis (presidente da ABGLT) apontando algumas distorções e equívocos (o material apresentado à Dilma pelos opositores não seria o mesmo aprovado pelo MEC) e a possibilidade de uma reunião com a presidência na semana que vem.

Bem, não resisti e cá estou escrevendo sobre o assunto. Controvérsias a parte, não há como se manter passivo diante do que acabaram de fazer conosco. O lobby político (nome chic para SACANAGEM) acabou de usar os gays como moeda de troca de seu jogo sujo.

Suspendam o kit gay e nós pouparemos Palocci e seu escândalo de enriquecimento ilícito – diz o bando, ops, a bancada religiosa: – São 70 votos, ouviu Dilma?… Lembra das eleições? Não esqueça do favor que nós deve, hein?

É tudo maracutaia envolvendo grana alta, interesses escusos, politicagem da grossa…

E os gays nessa história?… Pau no cu deles! (metafórica e literalmente).

Como bem disse meu amigo Fernando Lebkuchen em uma de nossas trocas de e-mail: nós gays somos bucha de canhão. Somos quase uma unanimidade: ou não gostam da gente ou simplesmente não se importam.

O que me emputece é ver os próprios gays aplaudindo esta rasteira que nos foi dada. Fiquei pasmo quando li um texto de um blogueiro gay dizendo que o kit gay “já foi tarde”. Ele, que se diz “gay e professor”, disse que “escola não é lugar de educação, mas sim de ensino!” e que “professor é pago para ensinar, não para educar!”. Este mesmo blogueiro escreveu que “um professor que fizer seu aluno aprender sua respectiva disciplina já terá feito a sua parte – o que é muito! E deixe a família fazer a parte dela”.

Muito bem, sr. blogayro, esta é a sua opinião, mas pare um pouco para pensar no que está acontecendo à sua volta antes de disseminar as suas abobrinhas pela rede.

Você ainda não reparou que estamos sendo massacrados pelos religiosos, que passam descaradamente por cima da Carta Magna que separa o Estado da religião no Brasil? Nosso país é LAICO, é bom lembrar! Os interesses religiosos que se impõe na política brasileira estão todos encobertos por uma crosta MUITO espessa de sujeira!

Você sabia que uma pesquisa feita nas escolas pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas em 2009 mostrou que 87,3% dos entrevistados (entre alunos, professores, funcionários e pais de alunos) têm preconceito com relação aos LGBT?

Você sabia (aposto que não), que 1 homossexual em média é morto a cada dia no país SOMENTE por ser homossexual?

E que todo esse preconceito (apoiadíssimo pelo discurso religioso) reflete diretamente no bullying homofóbico presente nas escolas?

Entende agora a justificativa para a existência do kit anti-homofobia? Hein?

Quer dizer, então, que como professor você não tomaria nenhuma atitude diante de um ato homofóbico, simplesmente porque este não é o seu papel?

Ora, se eu visse uma criança na praia nadando para longe da beira eu diria a ela que voltasse porque seria perigoso, mesmo não sendo o pai desta criança. E se por acaso eu a visse se afogando, tentaria salvá-la da maneira que pudesse. Não ficaria parado assistindo-a afundar, porque este é o trabalho do bombeiro salva-vidas e não o meu… Isso chama-se humanidade.

Bem disse o Deputado Jean Willys: “Se a presidenta optar por ceder à chantagem – não há outro nome – dos inimigos da cidadania plena fazendo de seu mandato um lamentável estelionato eleitoral, só me resta esperar que, na próxima eleição, os LGBTs e pessoas de bom senso despertem sua consciência política e lhe apresentem também sua fatura: não voto!”

Eu não votei na Dilma e não vou me manter na passividade. Espero realmente que os LGBT ampliem suas mentes (ouviu, sr blogayro?) e acordem de uma vez por todas, ou seremos engolidos.

Pelo menos, apesar de toda esta sujeirada e perseguição, uma coisa eu tenho sentido nas últimas semanas: orgulho de ser carioca!

Orgulho de saber que foi por causa de uma iniciativa do Governador do Rio de Janeiro que o STF aprovou a união civil gay. Orgulho de ligar a televisão e ver a todo momento um vídeo contra a homofobia criado pelo Estado do Rio (e spots de rádio também). Orgulho de ver a cada ponto de ônibus da cidade um cartaz pedindo respeito aos homossexuais. Orgulho de saber que a Secretaria de Turismo do Rio lançou uma campanha internacional para atrair os turistas gays. Orgulho de olhar para o prédio da Central do Brasil (aquele famoso com o relógio na torre) e ver as janelas pintadas com as cores do arco-íris do programa Rio Sem Homofobia.

O Rio ainda está longe da perfeição ou de ser o paraíso gay, mas pelo menos é muito bom saber que aqui tem gente muito corajosa e disposta a lutar pela causa. E que eu faço parte disso. E que sirva de exemplo para os militantes de todo o país, e também para aqueles que não lutam e nem sabem votar.

(Saiba mais sobre Kiko Riaze aqui)

* Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião do Pará Diversidade.