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“Amo a minha vagina”, diz ator pornô e ativista Buck Angel

17 junho 2013 Nenhum comentário

Buck Angel (41) é exemplo máximo de transgressão. O transhomem, que ficou conhecido mundialmente como o ator pornô com vagina – haja vista a produção V de Vagina [2006] – surpreende ao dizer que, apesar da luta pelo gênero masculino, não se submeteria a cirurgia de redesignação sexual [conhecida como mudança de sexo]. No documentário Mr. Angel [2013], ele afirma que ama tanto o seu órgão sexual feminino que, se tivesse o dinheiro da cirurgia, preferiria comprar uma caminhonete.

“Não faria a cirurgia caso tivesse o dinheiro, pois este pênis não seria funcional. Além disso, amo a minha vagina e ela não me faz menos homem que nenhum outro. Hoje, quero levar a minha mensagem para as demais pessoas e provar que somos pessoas comuns”, declara porn star, que nos últimos anos se tornou ativista e passou a dar palestras sobre educação sexual pelo mundo.

No filme de Dan Hunt, que foi gravado durante seis anos, nos EUA, Alemanha e México, Buck revela detalhes de sua infância, da conturbada relação com os pais, Bill e Paty, do curioso relacionamento com a esposa, Elayne Angel, e a da entrada no universo erótico, que deu a ele em 2007 o prêmio de Melhor Performance Transexual no AVN Award. “Não sou uma aberração, afinal existem milhares de outros homens como eu pelo mundo”.

Forte, másculo e bem resolvido, a consciência sobre o seu lugar no mundo não veio pacificamente. Na verdade, foi tirada a fórceps com uma encantadora e ousada trajetória que envolveu intolerância, internações e, claro, o preço caro por sua transgressão.

Uma modelo de sucesso e o envolvimento com as drogas

Apesar da luta pela identidade de gênero, Angel sente-se menino desde a mais tenra idade e foi criado pelos pais [que até então não viam problema no comportamento masculino da “filha”] como mais um garoto. Ele driblava os eventuais vestidos e lacinhos se dedicando ao máximo ao esporte e nas atividades consideradas masculinas. A consciência de que é um homem foi tão grande que, ao menstruar, nem sabia do que se tratava.

Aos 16, teve um surto. O pais o proibiram de entrar em uma importante competição, devido às notas baixas na escola e, desolado, Buck tentou cometer suicídio. Resultado: foi encaminhado para a terapia. Foi lá que revelou pela primeira vez que sempre se sentiu um homem. Mas a [óbvia e não menos bombástica] revelação não foi bem aceita pelos especialistas – que o classificaram como doente.

“Na época, as questões dos transexuais não eram bem documentadas e as pessoas não sabiam como lidar comigo. Achavam que eu tinha algum tipo de problema. Eu costumava sair com lésbicas, mas não sentia como uma mulher caminhoneira. Já me sentia um homem”.

Desde então, travou uma disputa de sair e voltar para a clínica, receber reposição hormonal e retornar ao lar dos pais como mulher. Assumindo o papel que a família esperava, ele tornou-se uma modelo profissional e fotografou para inúmeros editoriais. Apesar de a fase teoricamente ser positiva, Angel era infeliz e acabou se envolvendo na dependência de álcool e drogas.

“Eu fazia cortes no meu rosto para aliviar a tensão em que vivia. Com o corte, parecia que saía ar e a diminuía a pressão em minha cabeça”, conta ele, que viu o fim do poço chegar e resolveu se reerguer. Foi então que decidiu assumir o homem que sempre existiu.

Um pornô educativo

Dono de músculos, tatuagens e barba, Angel toma religiosamente os hormônios masculinos, já fez a mastetocmia [a retirada dos seios] e mais recentemente a histerectomia [a retirada do útero]. Sem referências e consciente dos dramas que muitos jovens passam, utilizou dos filmes eróticos para provar a sua existência e dizer para o mundo que existe, sim, homens sem pênis – e com vagina.

Em 2004, lançou o filme Buck’s Beaver, transando com mulheres. Em 2005, participou da produção Cirque Noir, transando com outros homens. Já em Allanah Starr’s Big Boob Adventures, Angel surpreende novamente e faz um filme com travestis e mulheres transexuais. Uma ousadia!

“Quando ele me convidou para fazer um filme ao seu lado, fiquei impressionada. Porque eu nunca tinha feito sexo com… Não sei como falar… Com uma vagina, digamos assim”, exclamou a atriz trans Wendy Willians.

À frente do seu tempo, Buck misturou as normas, sexualidades e concepções sobre o que é sexo biológico. Quem é gay? Hétero? Homem, trans ou mulher? Por meio de filmes eróticos – sim, quem diria?, dos filmes pornôs – provou que qualquer pessoa pode se relacionar na tendenciosa e engessada sopa de letrinhas. Além de inspirar muita gente, fez ainda a categoria trans entrar no mais requisitado prêmio pornô.

O preconceito

Tanta transgressão nem sempre foi motivo de recompensa ou aplausos. Na reunião com o empresário da pornografia gay, Michael Lucas, Angel levou mais que um sonoro NÃO. Após se oferecer para atuar em um dos filmes da produtora e frisar que é assediado por homens gays, ele recebeu a espinhosa resposta:

“Já recebi os mais pervertidos pedidos aqui, mas nunca nada como você, de alguém que queira ver um vídeo gay de um homem com vagina. Não acho que vá conseguir provar ao mundo que não é uma aberração. Se nem os gays e lésbicas conseguiram ainda, dificilmente você conseguirá”.

Já no talk show The Tyra Banks Show, Buck foi convidado para ter um programa totalmente dedicado sobre a sua vida. Porém, ao ser anunciado para entrar, quase caiu de costas: além de o tema do programa ser “aberrações”, ele teve que dividir o palco com outras pessoas que faziam parte do freak show.

Ao ser questionado como lidava com a sua vagina, Buck soltou: “Eu amo a minha vagina. Você ama a minha vagina?”.

A família

O pai do ator revela que ainda hoje é complicado aceitar todas as transformações. Bill tropeça ao falar “filho”, insistindo que ainda existe uma “filha” e chora ao dizer que este é um assunto sobre o qual eles pouco conversam. “Não comentamos, apenas vivemos”, diz ele, antes de chorar e emocionar a todos que assistem ao depoimento.

Atualmente, Angel tem uma nova família e a sua eleita é a aplicadora de piercings, Elayne – uma mulher moderna, de cabeça rapada, repleta de tatuagens e piercings. Felizes, eles formam uma família de comercial de margarina, com sete cachorros e respeito mútuo. “Sei que os filmes pornôs são trabalhos e que não há sentimentos. Para tudo existe um limite e sabemos onde ele é”, declara a esposa.

Realizada com o casamento, Elayne afirma que sempre quis um homem como o marido e que certa vez fez uma excêntrica lista com tudo o que esperava de um homem. “Coloquei que queria que ele fosse preocupado com a saúde, que fosse tatuado… E que tivesse uma vagina. Quando conheci Angel, pensei: ‘Finalmente encontrei o homem da minha vida!’”.

Prefiro morrer

Nos últimos anos, Buck teve alguns problemas de saúde devido à quantidade de hormônios masculinos que usou no decorrer da vida sem prescrição médica. Ele brinca que, nesta altura da vida, não entende porque está indo ao ginecologista e se diverte com a reação inesperada das atendentes.

Elayne revela que, embora os médicos tenham descartados os hormônios, Angel já declarou que não vai parar. “Ele já disse prefere morrer que parar com os hormônios. Então, sabendo o quanto isso é importante para ele, eu não questiono. Fico triste porque quero uma vida longa para o meu marido, mas respeito as suas decisões”, frisa.

Diariamente, Buck recebe e-mails e mensagens de transhomens de todo o mundo. Muitos deles pedem conselhos e até dinheiro para que consigam sair de casa ou fazer as cirurgias. “Mas mesmo que eu tivesse esse dinheiro, eu não daria. As pessoas devem ser as responsáveis pela própria felicidade”, defende o ativista, que criou em 2012 o BuckAngelDating.com, um site de namoro para homens trans.

Nas feiras eróticas, é a esposa quem fica com a missão de explicar pacientemente para o público quem é Angel. “É um hermafrodita?”, pergunta um curioso. “Não é um homem com vagina. Ele nasceu com o sexo feminino, mas é um homem”, diz. De acordo com Buck, em alguns momentos há quem pense que se trata um homem com um micro-pênis… “Devem pensar, coitada dessa mulher [risos]”.

Todas as questões, vivências e quebras de barreiras apresentada no filme fazem parte do processo evolutivo. Conhecendo um homem como Buck – e que se relaciona com homens, mulheres e trans – sabemos mais sobre nós, dos seres humanos e de como as normas estão em constantes transformações.

Após Mr. Angel, não pensamos em Buck como um homem sem pênis, com vagina, um anjo ou apenas um astro do cinema pornô. Toda a construção fez de Angel um homem, um macho suprassumo, um homem com V. E este V é de vitorioso!

Assista abaixo o trailer do documentário Mr. Angel:

Fonte: NLucon