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Os bastidores de uma reportagem histórica – e sem bandeiras

6 maio 2015 Nenhum comentário

Capa de Exame

Na última quinzena, uma capa com quatro executivos gays dominou as rodinhas. A boa notícia é que o burburinho, escrito pelo repórter Lucas Rossi, não ficou restrito ao nosso universo: alcançou relevância por fazer vir à tona a necessidade de que a vida pessoal dos homossexuais se equipare a de seus pares heterossexuais nas empresas nas quais funcionários vestem terno e gravata.

Intitulada Chefe, sou Gay, a reportagem de Exame concedeu – para além de seus personagens poderosos – um inegável selo de modernidade numa das maiores e mais sérias publicações do País. Entretanto, não é, pasme, a primeira tentativa do título da editora Abril: em 2002, a revista fez um artigo homônimo – naquela ocasião, sem ninguém dando a cara a tapa.

Ainda assim é uma iniciativa louvável – ou você não imagina que parte dos leitores de Exame pode considerar o tema indigesto? –, que merece atenção e me fez buscar Lucas Rossi, 26 anos, repórter especializado basicamente em gestão e que, há seis meses, começou a rascunhar as linhas que colocaram o assunto em voga. Acelerado como os bons jornalistas, confira abaixo nosso bate-papo exclusivo sobre os bastidores desta notícia.

Foram seis meses para a publicação desta matéria. É o tempo tradicional para uma capa de Exame?

Às vezes sim, mas eu queria e precisava me aprofundar no assunto. Inicialmente pensamos numa pequena entrevista com John Browne (ex-presidente mundial da petroleira BP, que teve sua condição sexual revelada num escândalo) e logo o Tim Cook (presidente da Apple) se assumiu. O pano de fundo estava armado e tive muito incentivo de minha chefe (a editora Ana Luiza Herzog).

E como você se aproximou dos personagens?

Tentando me colocar no lugar do outro. Eu não podia chegar e dizer: “Oi, tudo bem, você é gay?”. Então enviei um e-mail dizendo que estava fazendo uma matéria sobre o grupo LGBT nas empresas para saber se eles não podiam indicar alguém para participar. Entrevistei mais de 60 pessoas para chegar em 10 nomes. Começamos com presidentes de gigantes que não toparam falar. No fim, conseguimos quatro nomes para a capa e outros três que conversaram sob condição de anonimato.

Desta lista, houve alguém que você jurava ser gay e não era?

Claro que sim! Tinha um que eu pensava que era, mas logo me disseram que eu estava enganado, que o empresário tinha uma esposa e acabara de ficar viúvo…

São quatro brasileiros na capa: Ezra Geld, da agência J.W. Thompson, Gisela Pinheiro, da química Dow, Ricardo Yuki, do Citibank, e Sérgio Giacimo, da GE. Como foi persuadi-los?

Além de serem bem resolvidos, todos eles primeiramente consultaram seus maridos e esposas. Ah, o Ezra inicialmente apareceria em off, foram dois meses para convencê-lo. Felizmente, ele já me escreveu dizendo que está feliz e surpreso com a repercussão.

Mas o Ezra é um publicitário. As agências não são mais abertas?

A gente acha que o mundo publicitário é aberto. Mas ele é tomado de preconceitos. Os que mais tratam livremente o tema, na atualidade, são bancos de investimentos, indústrias pesadas e nomes da tecnologia. Algo que a gente não espera.

Você sente que algumas empresas apoiam, mas o executivo tem medo, é isso?

A grande questão é que tem muita corporação tentando, mas as pessoas não mudam a cabeça. Conversei com um grande executivo gay ele me contou que, em seus quatro meses de nova empresa, as funcionárias querem saber de seu chá de cozinha. Elas realmente acreditam que ele seja hétero e dão em cima (risos).

Não houve resistência dentro da própria Exame?

De modo algum. Sei que meu diretor (André Lahóz) a aprovou na hora. Percebemos que era um assunto quente, que dava um caldo. Entretanto, nós não queríamos fazer ninguém sair do armário e eu tinha um receio de que essa capa virasse polêmica. E, portanto, decidimos não militar. A gente não defende nada e também tomamos muito cuidado com as palavras, para não ferir ninguém. Ninguém sabe tudo sobre o gay.

Alguma cantada esquisita por causa da matéria?

Não, não! Mas percebo que tem muita gente querendo falar e mais de setenta pedidos de amizade no meu LinkedIn (risos). É um primeiro passo e o papel do jornalismo: colocar um assunto na mesa, contar uma história e fazê-lo ser discutido.

Conheça alguns dos personagens de Exame:

Fonte: Universo AA