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Crossdresser, travesti, trans: Laerte fala sobre sexualidade

29 maio 2015 Nenhum comentário

Foto à esquerda, Laerte Coutinho em 2008, aos 56 anos e na imagem à direita, em 2012, aos 60 (Foto: Arquivo pessoa/Rafael Roncato)

No passado, a cartunista brasileira Laerte Coutinho (63) chegou a se classificar como “crossdresser”, hoje se vê mais como travesti, mas no geral sente-se confortável em se afirmar como pessoa transgênero. Prefere ser chamada por “ela”, e começou a discutir o assunto no Brasil há mais de dez anos. Vai ao cabeleireiro e à manicure, se depila em casa e ressalta que a cirurgia de mudança de sexo não está em seus planos. “As pessoas fazem por sentir inadequação total com suas genitálias. Não é o meu caso.”

Em entrevista ao Terra , ela fala desde sua infância até a descoberta como transgênero. Confira melhores trechos.

Revelação

A “revelação” de Laerte aconteceu em 2004, quando tinha 52 anos, motivada pela publicação de uma tira do seu personagem Hugo como um travesti. “Comecei timidamente a dar alguns passos na direção de me travestir comprando uma calcinha ou uma sandália para provar em casa”, afirmou ela, que colocou este projeto pessoal de molho no início de 2005, quando Diogo, um dos seus três filhos morreu em um acidente de carro.

Geralmente, os trans percebem os primeiros sinais quando criança, mas não foi o caso de Laerte, que teve uma infância tradicional como menino. “As curiosidades que tive em relação a itens considerados de meninas sempre me foram satisfeitas, minha mãe me ensinou um pouco de cozinha e de costura. Quer dizer, cresci numa família bastante aberta”.

Em 2009, aos 58, Laerte decidiu buscar referências para se “montar” e contou com a ajuda de um especialista em produzir homens com trajes femininos, e do Brazilian Crossdresser Club, maior clube de crossdressers da América Latina. Foi lá, aliás, e em outros grupos – onde é praxe ter um nome feminino por questões de segurança quanto pela necessidade de afirmar uma identidade – que Laerte escolheu o seu: “Escolhi Sônia porque pareceu, literalmente, a minha cara: ‘olhei no espelho e me chamei de Sônia’”. Ela cogitou adotá-lo socialmente, mas depois desistiu. “Gosto de Laerte, tenho uma vida inteira com ele, nunca tive aversão por ele ou por outros aspectos da minha vida em masculino.”

Bissexual assumida, Laerte renegou sua homossexualidade dos 17 até os 49. Chegou até a participar, em sua adolescência, de agressão verbal contra comportamentos considerados “mariquinhas”. Apesar disso, suas primeiras experiências foram com o sexo masculino, o que lhe despertou interesse, mas o pânico a venceu e ela bloqueou o desejo sexual por homens e passou a se relacionar com mulheres.

No entanto, enfatiza que “as relações que teve com mulheres não foram exatamente farsas”. “Casei porque quis casar, gostei das pessoas com quem casei o suficiente para isso”, disse sobre os três matrimônios. A primeira união durou três anos. A segunda, 12, e teve como frutos Rafael e Diogo, que faleceu em 2005. O terceiro foi o mais longo, cerca de 11 anos, e gerou a Laila. Laerte não sabe bem como as ex-esposas receberam a notícia de ser trans, mas afirma ter o respeito e afeto dos filhos.

Após os casamentos, Laerte namorou por nove anos e teve o apoio da companheira à época. Atualmente solteira, Laerte não engata nenhum relacionamento há três anos. “Tem sido bom, acho que eu precisava desta fase. Não sei se quero mudar. Em outros períodos da vida eu fugia com alguma ansiedade do estado de estar sem ninguém”.

Vaidade

Como toda pessoa vaidosa, Laerte vai ao cabeleireiro e à manicure. A maquiagem fica por conta dela, que só recorre a profissionais quando o compromisso exige um capricho maior. A depilação também: “faço isso em casa, mesmo. A não ser o rosto, em que aplico laser. O resto resolvo com cera ou lâmina”.

Sobre as transformações no corpo, a cartunista conta que não toma hormônios. “Parece que na minha idade não faz tanto efeito”, diz. Ela pensa em fazer um implante de silicone nos seios, mas a cirurgia de mudança de sexo não está em seus planos: “as pessoas a fazem por sentir inadequação total com suas genitálias. Não é o meu caso”.

Laerte diz ser recebida com carinho pelo público – acredita que devido à fama – mas adverte sobre o tratamento “brutal” que a maior parte das pessoas trans no Brasil recebe. “São alvos desde a infância e adolescência de exclusão, violência, humilhação e agressões – muitas delas fatais. É um preconceito evidente.”

SEXUALIDADE EM NÚMEROS

A identidade de gênero costuma se estabelecer por volta dos 3 e 4 anos, podendo variar de indivíduo para indivíduo. Fatores como o meio em que se vive, a família e as experiências pessoais, a cultura da época ou do país podem interferir neste processo.
Não há números precisos sobre quantos transexuais existem no mundo, mas, segundo o livro Standards of Care – espécie de manual que padroniza a assistência à população trans no mundo -, a variação é de 1 a cada 12.000 até 1 a cada 45.000 mulheres transexuais, e 1 a cada 31.000 até 1 a cada 200.000 homens transexuais.
No Brasil, de 2008 a 2014, foram feitas 246 cirurgias de redesignação sexual no Brasil e 6.741 acompanhamentos no processo transexualizador e administração hormonal. Em geral, do total de pacientes, em torno de 70% são transexuais (66% de mulheres transexuais e 4% de homens transexuais) e 30% são travestis.
Segundo o dr. Mori, o procedimento cirúrgico custa em média de R$ 30 mil a R$ 40 mil em hospitais particulares. Pelo Sistema Único de Saúde, o Ministério da Saúde exige que o interessado seja submetido a sessões de psicoterapia por no mínimo dois anos. Em alguns serviços do Ministério da Saúde do Brasil, do total de homens transexuais, 91% desejam realizar a mastectomia, enquanto 90% das mulheres transexuais querem fazer a cirurgia de mudança de sexo. No caso dos travestis, a procura é por orientação hormonal e psicoterapia. Ainda de acordo com o órgão, boa parte chega ao serviço já fazendo uso de hormônios, mesmo sem orientação médica, e com complicações em função da aplicação de silicone industrial.
Fontes: Ministério da Saúde e Dr. Daniel Mori, médico psiquiatra do Ambulatório de Transtornos de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (AMTIGOS) do IPq/HCFMUSP

Fonte: Terra