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Travestis trazem no corpo a marca da violência de gênero

2 junho 2015 Nenhum comentário

Travestis se identificam de forma singular (Ilustração de Abbey Watkins)

“Mas é preciso ter força

É preciso ter raça

É preciso ter gana sempre

Quem traz no corpo a marca

Maria, Maria

Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha

É preciso ter graça

É preciso ter sonho sempre

Quem traz na pele essa marca

Possui a estranha mania

De ter fé na vida”

Quando canta ‘Maria, Maria’, Milton Nascimento poderia estar cantando à Kharla, Cynthia, Roberta, Sharon, Camily, Iara, Rebecca, Pryscilla. Todas elas travestis. Todas elas trazendo no corpo a marca, com graça, com sonho, com raça. Suas vidas misturam dor e alegria. Essas ‘Marias’ trazem no corpo a marca das violências que atravessam suas trajetórias desde a infância. Cometidas física ou simbolicamente, de forma explícita ou invisível, essas violências expõem os estigmas nos quais as travestis estão imersas. Todas, no entanto, possuem a estranha mania de ter fé na vida.

Essas oito travestis, de perfis diversos e histórias de vida particulares, aceitaram narrar suas vivências à psicóloga Valéria Melki Busin, que, a partir de cenas relatadas por elas, construiu sua tese de doutorado pelo Instituto de Psicologia da USP, questionando o que justifica a violência absurda e reiterada contra travestis.

O estudo apontou o gênero como a questão que mais legitima a violência contra elas, entretanto, Melki Busin não encontrou em nenhum trabalho anterior uma definição de violência de gênero que englobasse a experiência da violência vivida pelas travestis. Os episódios violentos são motivados pela ruptura com o roteiro de gênero imposto socialmente, assim ela propõe que a noção de violência de gênero seja ampliada. A partir da nova concepção, essa violência seria exercida a qualquer pessoa desqualificada por: se expressar de forma vista como feminina; uma designação de gênero atrelada ao corpo no âmbito biológico e com o qual ela não se identifique; não seguir os scripts de gênero em que foi socializada.

“É a dose mais forte e lenta”

Não existe no Brasil uma contabilização categórica da violência contra travestis. De acordo com levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), 134 travestis foram assassinadas no país em 2013, mas os números são imprecisos. Estimativas da Articulação Nacional das Travestis, Transexuais e Transgêneros (Antra) apontam que a expectativa de vida das travestis fica em torno de 30 anos, devido às condições a que são submetidas. Além do preconceito e da violência, elas estão expostas à prostituição, às drogas, à contaminação por HIV e à precariedade dos processos cirúrgicos de “feminilização”, o que reduz a duração de suas vidas para menos da metade do restante da população.

Por conta da baixa expectativa de vida, a pesquisadora teve dificuldades para encontrar uma travesti mais idosa com quem pudesse conversar. Após as buscas, reuniu colaboradoras com idades que variavam de 20 a 65 anos, originárias de diferentes regiões do Brasil e com identificações raciais distintas. Residentes da Grande São Paulo, eram desde moradoras de rua até pertencentes à classe média. Todas as colaboradoras já haviam trabalhado como profissionais do sexo, exceto uma delas. Segundo Melki Busin, isso não é uma coincidência: “existe uma dinâmica social que organiza a vida das travestis para que elas só tenham existência possível na prostituição”.

A única travesti que nunca atuou na prostituição foi também a única que não abandonou a escola, pois conseguiu camuflar características tidas como femininas, cultivando a barba e namorando meninas para disfarçar sua identidade durante a adolescência. Essa mesma colaboradora, que na pesquisa usa o nome Pryscilla Stephanie Gomes, não mais se denomina como travesti, reconhecendo-se atualmente uma mulher transexual. Como explica a psicóloga, a ideia que geralmente se tem sobre travesti é muito vinculada a algo sujo e indecente, associada à prostituição e ao pecaminoso.

“É um dom, uma certa magia”

Na literatura acadêmica, é comum que as travestis sejam colocadas em um espaço entre os sexos masculino e feminino, tendência que busca romper com o binarismo de gêneros, mas o revisita ao estabelecer dois gêneros e a “fronteira”. As oito colaboradoras, no entanto, ofereceram definições singulares sobre ser travesti. Uma delas, Kharla Pinheiro, diz “Não sou mulher, mas também não sou homem. Me considero travesti”. Outra entrevistada, Cynthia Toledo, entende que travesti é fantasia, sonho, mas, acima de tudo, ousadia.

Apesar das particularidades, algumas semelhanças aparecem nos discursos sobre a identificação de cada uma como travesti: todas foram designadas como homens ao nascer; não se enquadram em scripts criados para elas, sendo protagonistas e estrelas de suas próprias vidas; se reinventam e vivem suas fantasias com coragem. “Algo que incomoda a sociedade sobre as travestis é que elas têm muita coragem, todas romperam com as mesmices do binarismo de gênero, subverteram as normas. Elas são ousadas e essa liberdade é inaceitável para a maioria das pessoas”, afirma a psicóloga.

Logo que elas começaram a apresentar características tidas como femininas, como a vontade de usar vestidos ou maquiagem, foram reprimidas na família, na vizinhança, na escola. Tal reação é vivida pela quase totalidade das travestis durante a infância e a adolescência. A partir dessa repressão, elas começam a codificar que a apresentação de traços de feminilidade as desqualificaria, sentindo uma interdição em seu modo de ser e agir socialmente. Inicialmente, procuraram esconder esses traços, pois, ao se expressarem de forma feminina, sofriam humilhações e violências típicas da estigmatização e percebem que não detêm respeito e dignidade. É bem comum que, naquele momento, se sentissem ou fossem vistas como gays, sendo insultadas por isso.

“De uma gente que ri quando deve chorar”

A violência se expressa como forma de demarcar relações de poder. Vem, muitas vezes, de quem deveria proteger. Na escola, ao sofrerem, não sentiam como se tivessem direitos violados, sentiam-se culpadas. Iara Pereira contou que não podia usar o banheiro masculino, pois sofria agressões, então ia ao banheiro feminino enquanto suas colegas ficavam na porta impedindo que alguém a visse. Não podia reclamar sobre o que ocorria, não tinha a quem recorrer. Roberta Barretto, viveu uma violência sexual e simbólica ao ter seus seios, resultantes do uso de hormônios, apalpados por um professor.

Constantemente elas são agredidas com crueldade na rua por desconhecidos, sem motivo algum, simplesmente por serem travestis. As que estão na prostituição de rua, “fazendo pista”, são as mais expostas. Mas as agressões podem vir de todos os lados. Certa vez, Iara foi esfaqueada por um falso cliente, não morrendo por muito pouco. No hospital, um policial questionou o que ela tinha provocado para ser agredida pelo “maridão”. Ficou revoltada, mas não teve reação: “Aquilo me cortou”. Durante sua internação, sob efeito de medicamentos, foi abusada sexualmente por um enfermeiro, que esfregou o pênis em sua mão enquanto ela estava incapaz e tentou entrar no banheiro enquanto ela tomava banho para continuar o abuso. “O tempo inteiro as travestis temem quando virá a próxima agressão”, diz a pesquisadora.

“E não vive, apenas aguenta”

Durante a infância e a adolescência, as alternativas que tinham eram: esconder de si e dos outros a ruptura do roteiro de gênero para garantir a sobrevivência, o que seria uma morte simbólica de sua identidade; ou se expressar abertamente, correndo o risco de morrer pela violência. Na vida adulta, a tentativa da sociedade e, algumas vezes, de parte da militância LGBTT em “higienizá-las” e ditar a forma correta como devem agir também seria uma violência simbólica capaz de assassinar sua identidade. Assim, para se libertar da violência, elas entendem que precisariam morrer, fisicamente ou como travesti.

O lugar frequentemente ocupado pelas travestis é o de mulheres de “mentira”, desqualificadas por possuírem o orgão sexual dos homens, independente de quererem ou não manter o pênis. O fato do nome presente nos documentos não condizer com a sua aparência, e a impossibilidade de alterá-lo, também é percebido por algumas como uma violência, assim como o uso do pronome masculino. A mais velha do grupo, Cynthia, tem uma visão oposta: ela acredita que deve haver a possibilidade do nome ser mudado, mas que a contradição faz parte de ser travesti; a solução seria a travesti ser aceita em qualquer lugar, com qualquer nome.

Fonte: Agência Universitária de Notícias – USP