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Sim, quero ser pai! Homens homossexuais também desejam ter filhos

6 agosto 2015 Nenhum comentário

Arte: Priscila Santos

As novas formações familiares trazem para dentro de casa novos personagens. Além de padrastos, madrastas e meios-irmãos, há cada vez mais lares formados por casais homossexuais com filhos, biológicos ou adotivos. E como se dá a paternidade entre homens homossexuais? Essa questão é objeto da Pesquisa “Sim, quero ser pai: Significados da paternidade para homens homossexuais de Ulianópolis/PA”, de Evanildo Lopes Monteiro, atualmente professor da Faculdade de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal do Pará (FFTO/UFPA).

A partir de uma abordagem qualitativa com influência da fenomenologia, da Gestalt-Terapia e da Terapia Ocupacional Social, o pesquisador produziu sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFPA, sob a orientação da pesquisadora Adelma Pimentel, e analisou o desejo masculino de vivenciar a paternidade e sua relação com a orientação sexual do indivíduo.

Projeto de vida – O estudo foi feito por meio de entrevistas com quatro jovens homossexuais, com formação superior, faixa etária de 25 a 28 anos e residentes no município de Ulianópolis, no sudeste do Estado. Protegidos por pseudônimos, eles falaram sobre sua descoberta individual em relação à própria sexualidade, suas relações familiares e seus planos para se tornarem, futuramente, pais. “Para eles, é um projeto de vida que, se não concretizado, pode trazer sofrimento”, sintetiza o terapeuta ocupacional da UFPA.

Os entrevistados foram unânimes em descrever o que é ser pai. “É, para eles, o homem que cuida, que protege, guia, orienta e contribui para proporcionar a cidadania a essas crianças. Todos defendiam que a figura de afeto, acolhimento, cuidado e proteção do pai não é incompatível com sua orientação sexual”, aponta Evanildo Monteiro.

Ele comenta que a questão da parentalidade é cada vez mais complexa, pois a figura paterna é resultado da construção de laços afetivos, formais, civis, culturais, religiosos, históricos e até mesmo políticos em relação aos seus descendentes. Assim, “uma pessoa homossexual pode requerer por meios jurídicos a adoção de uma criança, a ‘filiação socioafetiva’, ou recorrer ao uso de tecnologias reprodutivas (inseminação artificial), da coparentalidade e ainda se envolver com o sexo oposto para tornar-se pai”, enumera.

Meninos e meninas – Entre os quatro entrevistados na pesquisa, havia uma divisão de opiniões e de projetos em relação ao tipo de família a ser formada e ao gênero do filho desejado. Dois dos entrevistados preferiam continuar solteiros e gerarem filhos biológicos. “Um preferiria gerar a criança por meio de relação sexual com uma mulher e cuidar do filho de forma semelhante ao de um pai divorciado; o outro planejava gerar o filho por meio de inseminação artificial com uma amiga; havia um que desejava casar-se com outro homem e adotar um filho e o último preferia adotar o filho, mas continuar solteiro.”

Evanildo Monteiro também conta que dois dos entrevistados afirmavam preferir ter filhas, um dizia não ter preferência e o outro, se pudesse, optaria por ter um menino. “Nestas falas sobre optar por filhas aparecia o receio de não conseguir ‘passar para a criança o comportamento esperado de um menino’ e de não saber como cuidar de um menino, que revelam o medo que sua orientação sexual poderia, de alguma forma, influenciar a sexualidade do filho. Além disso, havia a afinidade maior com as meninas, pois eles retratavam, em sua infância e juventude, ter mais afinidade com as mulheres e ter mais dificuldades em estabelecer amizades com homens.”

O temor está ligado à história de vida dos jovens que retratavam como dolorosas as experiências por meio das quais foram percebendo, paulatinamente, que eram diferentes dos demais meninos e seus comportamentos não condiziam com “os esperados de um homem”. “Todos, por exemplo, falavam que não jogavam futebol na infância e adolescência e que praticar este esporte tem um significado de competitividade e virilidade que, por sua vez, eles poderiam não possuir. Estas ‘expectativas’ sobre o que é masculino e feminino são influenciadas pela cultura machista, a qual cobra do homem que ele não chore, não seja delicado e seja forte e viril”, explica Evanildo Monteiro.

Medo do preconceito ainda é grande – Chamou atenção do pesquisador, também, o desejo de ressignificar com os filhos os relacionamentos que tiveram com os próprios pais. “Especificamente, entre os quatro entrevistados, há um histórico de relacionamentos ruins com os pais. Pais que foram ausentes ou distantes. Eles buscam ‘um dia ser para este filho o que não tiveram na própria infância’”.

Outro receio dos jovens era quanto à reação dos filhos em relação à sexualidade do pai e/ou a formação familiar em que cresceriam. “Eles eram enfáticos em afirmar que haveria um momento em que precisariam conversar abertamente com os filhos sobre sua orientação sexual, mas precisariam avaliar qual seria o momento ideal para esta conversa. Por isso, temiam que os filhos pudessem descobrir que o pai era homossexual antes que este momento pudesse acontecer. Talvez ouvir piadas dos amigos na escola ou perceber que vinham de uma família que era diferente das outras. O medo era de que fossem rejeitados pelos filhos ou que ‘ter um pai homossexual’ pudesse levar as crianças e adolescentes a desenvolver comportamentos rebeldes ou inadequados”.

A conclusão –  A pesquisa aponta que a construção da paternidade entre homens homossexuais não difere do mesmo processo entre pais heterossexuais e orienta que um acompanhamento pela terapia ocupacional e da Psicologia Gestalt poderia ajudar homens gays que sonham em ser pais a pensar, planejar e vivenciar a paternidade, seus benefícios e dilemas, criando um ambiente de escuta, troca e reflexão.

Texto: Glauce Monteiro e Edson Costa – Assessoria de Comunicação da UFPA

Fonte: Portal da UFPA