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Primeiro ambulatório trans do Norte é inaugurado em Belém

9 outubro 2015 Nenhum comentário

Autoridades e militantes comemoram a inauguração do primeiro ambulatório trans do Norte (Foto: Michelli Almeida/Pará Diversidade)

Por Ádria Azevedo e Michelli Almeida – Pará Diversidade

Foi inaugurado, na manhã desta quinta-feira (11), o primeiro Ambulatório Trans da região Norte, que funcionará no espaço da Unidade de Referência Especializada em Doenças Infecciosas e Parasitárias Especiais (Ure-Dipe), um dos centros de atendimento a pacientes com HIV de Belém. O ambulatório oferecerá, a partir da próxima terça (13), atendimento a pessoas trans no processo transexualizador, regulamentado pela Portaria nº 2.803/2013 do Ministério da Saúde, que prevê assistência integral a travestis e transexuais em sua readequação de gênero.

Estiveram presentes na cerimônia representantes do movimento LGBT, em especial do segmento trans, por meio do Fórum de Pessoas Trans do Pará, além de autoridades do Estado, a exemplo da secretária adjunta de Saúde, Heloísa Guimarães, do secretário de Justiça e Direitos Humanos, Michell Durans, e da secretária Extraordinária de Integração de Políticas Sociais, Izabela Jatene.

Demanda antiga

O ambulatório é uma reivindicação de muitos anos da comunidade trans paraense, desde a publicação da primeira portaria sobre o processo transexualizador, em 2008. Sexto serviço do tipo no país, a unidade surge agora em uma iniciativa da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa), com o apoio do Ministério da Saúde e participação do movimento social.

Raicarlos Coelho, homem trans membro do Comitê de Saúde Integral LGBT do Ministério da Saúde e da Sespa e um dos principais articuladores para a criação do ambulatório, enfatizou o comprometimento da Secretaria de Saúde com a implantação do serviço. “A Sespa de fato acolheu a nossa demanda”, afirmou. Izabela Jatene ressaltou que foi um passo corajoso dado pelo governo do Estado. “Quando se discutiu a possibilidade de criar o ambulatório tempos atrás, muitos diziam que era um absurdo. Agora conseguimos. Então, esse é um momento de enfrentar os desafios e aproveitar a oportunidade para superar preconceitos”, avaliou.

Questionamentos

Apesar de, em geral, estarem satisfeitas com a criação do ambulatório, muitas pessoas trans presentes à inauguração levantaram questões sobre o funcionamento do serviço. Bárbara Pastana, coordenadora do segmento de transexuais do movimento LGBT do Pará, expressou sua preocupação com o início de um atendimento que classificou como ainda não tão estruturado. “Adianta começar algo pra parar no meio do caminho? Se não tem uma política efetiva, não adianta fazer”, opinou. A ativista também demonstrou receio quanto à capacitação dos profissionais que serão responsáveis pela assistência.

Duda Lacerda, coordenadora do segmento de travestis do movimento LGBT do Pará, considerou muito positiva a criação do espaço, por ser um serviço que travestis precisam há muito tempo, já que muitas realizam a hormonização por conta própria, o que pode ser danoso à saúde. “Mas nós sentimos falta de ser mais ouvidos na construção desse processo. É preciso que esse ambulatório funcione de verdade, com qualidade e que dialogue com os principais interessados, seus usuários”, pontuou.

Sebastian Salustiano deu voz à preocupação de outros homens trans que, como ele, já utilizam hormônio: a de que teriam que interromper o tratamento durante dois meses para recomeçar o atendimento via SUS. “Tomo hormônios há cinco meses com um acompanhamento particular de alto custo. Não gostaria de parar por dois meses para ‘limpar o organismo’ e então começar o tratamento aqui, pois isso implica em diversas alterações orgânicas e psicológicas”, disse. No entanto, a coordenadora do ambulatório trans, Chica Vidigal, afirmou que o início ou reinício da hormonização dependerá da avaliação de cada caso pelo médico endocrinologista, mas que não será necessário interromper aqueles que já vêm sendo acompanhados por profissionais da rede particular.

Funcionamento

A partir da próxima terça-feira (13), as pessoas trans interessadas já podem procurar diretamente o serviço, para acolhimento, abertura de prontuário e agendamento das consultas. A equipe será composta por endocrinologista, ginecologista, nutricionista, psicólogo, psiquiatra, fonoaudiólogo e assistente social, muitos dos quais já compõem a equipe da Ure-Dipe. “Não temos apenas endocrinologista, ginecologista e psiquiatra, que serão profissionais que virão de outros órgãos para atender aqui”, explicou Chica Vidigal.

A coordenadora também esclareceu que a equipe vem sendo capacitada para a especificidade do atendimento. “Eu e mais três profissionais fomos até o ambulatório trans de João Pessoa para conhecer o serviço e estamos repassando aos demais profissionais tudo o que aprendemos. Mas ainda vamos trazer especialistas de outros estados para novos treinamentos”, informou. “Nenhum serviço começa cem por cento, ainda estamos, sim, nos estruturando. O importante, agora, é que ‘a criança nasceu’ e estamos empenhados em fazer tudo funcionar bem”, comemorou.

Veja abaixo fotos do evento: