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Corpos, gêneros e identidades

12 fevereiro 2016 Nenhum comentário

Entre os direitos conquistados, está o nome social: o nome que traz a verdadeira identidade de gênero (Foto: Alexandre Moraes)

Por Juliana Theodoro

As mulheres transexuais são aquelas que não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído por nascimento, ou seja, nasceram com o aparato biológico masculino e foram, portanto, identificadas como homens, mas, no decorrer de suas vidas, transitaram para o gênero feminino, ao qual se sentem verdadeiramente pertencer. O nome transexual vem da ideia de mudar de uma condição para outra, de transitar.

O ato de atribuir a uma pessoa a denominação de transexual é complexo e delicado, afirma a professora Telma Amaral, integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes (Gepem) e responsável pela linha de pesquisa “Gêneros, Corpos e Sexualidades”. “As tentativas de definir são sempre muito complexas, primeiro, porque a identidade deve ser autoatribuída e não imposta, ademais quando se trabalha com o campo da sexualidade e da transexualidade, em particular, deve-se levar em consideração que as experiências são diferenciadas e definir implica agrupar pessoas que possuem um conjunto de características em comum, o que acaba por homogeneizar um campo marcado pela heterogeneidade de vivências e percepções”, explica a professora.

“Podemos dizer, de maneira geral, que a pessoa trans, que envolve tanto mulheres quanto homens, é aquela que não se sente confortável com o lugar que lhe foi designado ao nascer. Essa identidade é atribuída em função de um marcador muito forte, que é o seu equipamento biológico, o seu corpo. Ao nascermos, somos classificados como homens ou como mulheres e treinados para ocuparmos os lugares compatíveis com essas identidades, desempenhando os papéis que essas condições nos impõem. As pessoas transexuais, em diferentes fases da vida, sentem que seu corpo não está adequado à maneira como pensam de si mesmas e procuram adaptá-lo à imagem de gênero que têm de si, mudando sua aparência, seja pelo uso de roupas associadas ao sexo oposto ao seu, seja pelos tratamentos hormonais e/ou procedimentos cirúrgicos”, diz a docente.

Brasil lidera a lista de países que mais matam transexuais

Por vivermos em um modelo de sociedade heteronormativo, as pessoas que não se adaptam a ele são excluídas. Segundo a professora Telma Amaral, o processo de exclusão abrange a família, a escola, o acesso aos serviços de saúde e a vida social como um todo. Por exemplo, se uma mulher trans chega a um consultório, o médico tem dificuldade em lidar com a situação, pois não foi preparado para esse tipo de atendimento. Muitas vezes, ele sequer conhece o que seja a transexualidade e isso se repete em outros campos.

O preconceito também produz a exclusão e, nesse processo, diante da necessidade de sobreviver, a prostituição acaba sendo a única alternativa possível. Por isso a travestilidade e a transexualidade ainda são muito associadas à ideia de prostituição, afirma a professora.

A marginalização abre caminho para a violência. O Brasil lidera a lista de países que mais matam transexuais e travestis no mundo. Segundo a Organização Não Governamental “Transgender Europe” (TGEU), foram registradas 604 mortes de janeiro de 2008 a março de 2014.

Um projeto de lei que prevê a inclusão na Lei Maria da Penha de transexuais e transgêneros que se considerem mulheres está em tramitação na Comissão dos Direitos Humanos, na Seguridade Social e Família e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A mulher transexual reivindica o reconhecimento social e legal como mulher e, com base nele, tenta garantir seus direitos.

Entre os direitos conquistados, está o nome social: o nome pelo qual a pessoa trans prefere ser chamada e traz sua verdadeira identidade de gênero. “Hoje, as meninas transexuais podem ter uma carteira de identidade chamada de Carteira de Registro Civil, elas tiram na delegacia. Essa foi uma das nossas maiores conquistas. Nós também temos a inclusão do nome social na lista de chamada das escolas da rede pública. Essas são conquistas do movimento”, destaca Bárbara Pastana, integrante do Grupo Homossexual do Pará (GHP).

Segundo Bárbara, a organização social e a militância são importantes para que esses avanços aconteçam. “Acho que precisamos reconstruir esse modelo de sociedade que tem certos padrões como corretos, em considerar a diversidade”. Bárbara Pastana foi a primeira mulher trans do Estado do Pará a conseguir o direito de adotar uma criança.

O Gepem tem realizado encontros, mesas-redondas e seminários com pesquisadores e integrantes de movimentos sociais, sobre a temática trans, a fim de aproximar a comunidade e a academia, além de dar a visibilidade que o assunto merece.

Fonte: Jornal Beira do Rio/UFPA