Negritude LGBT: a importância da interseccionalidade no movimento
De acordo com o mapa da violência de 2015, 54% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras. Casos de violência que envolvem questões de raça, gênero, classe e sexualidade no Brasil ainda são muito recorrentes, como por exemplo, a morte de Luana Barbosa dos Reis, que no dia 9 de abril desse ano foi agredida por policiais na frente de seu filho por ter se recusado a ser revistada por homens. Luana Barbosa era mulher negra, lésbica e periférica e não resistiu aos ferimentos causados pelo espancamento.
Na legislação brasileira, o racismo já consta como crime perante a Lei 7.716/89, que trata de qualquer caso discriminatório referente a raça ou cor. Porém, a discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero, que caracteriza a LGBTfobia, ainda não foi criminalizada de fato no país, mesmo sendo constatado que o Brasil é um dos países que mais registram casos de discriminação por esse motivo.
Quando pessoas negras estão inseridas na comunidade LGBT, a probabilidade de sofrer algum tipo de violência e discriminação é ainda maior devido aos diversos marcadores de diferença, como o racismo e a LGBTfobia. A psicóloga e pesquisadora sobre negritude e gênero, Flávia Danielle Câmara, conta que é necessário pensar na importância de se interseccionalizar as pautas e olhares da população para poder enxergar as diversas opressões sofridas pelas minorias.
“A interseccionalidade como ferramenta de pensamentos nos ajuda a perceber que uma mulher negra lésbica, bissexual ou trans, por exemplo, vai sentir o peso do sistema raça-gênero-classe de uma forma completamente diferente. Recai todo o peso histórico do marcador raça, uma vez que todos nós nos subjetivamos a partir de uma racialidade que, articulada com o gênero-classe e sexualidade, nos coloca em lugares diferentes, portanto com perspectivas diferenciadas sobre o que nos oprime”, explica Flávia Danielle.
A psicóloga afirma ainda que a falta de profissionais que discutam questões étnico-raciais ou de gênero também é um problema que ajuda a reforçar as diferentes opressões. “Essa deficiência profissional começa desde a academia quando eu, por exemplo, não tive nenhuma disciplina que falasse sobre relações étnico-raciais ou mesmo uma/o professora/o negra/o, o que tem importância na medida em que gera representatividade e uma outra perspectiva de olhar”.
A invisibilidade da população negra e da comunidade LGBT é perceptível em diversos espaços dentro da sociedade. Na mídia, por exemplo, a falta de representatividade é bastante evidente, como comenta a jornalista Flávia Ribeiro. “Esse processo é algo sutil para olhos desatentos, mas para nós é bem agressivo. Grupos historicamente excluídos de espaços públicos, como pessoas negras e LGBT são tratadas como ‘o outro’, o ‘diferente’, o ‘excêntrico’. Nossas vidas, nossos dramas e nossas mortes não geram comoção, não geram empatia, não interessam. Usando a TV como referência, por exemplo, a maioria das/dos repórteres que vemos são pessoas brancas, magras e cisgêneras. Isso fala muito de como as nossas pautas são tratadas pela imprensa”.
A discussão sobre raça, gênero e sexualidade tem caminhado para fortalecer estas pautas na sociedade, a fim de trazer mais visibilidade e representatividade às minorias, além de buscar amparo na legislação brasileira para que casos como a LGBTfobia sejam enquadrados como crimes, assim como o racismo.
Texto: Denise Corrêa (Rádio Web UFPA)
Imagem: Reprodução/Google
Fonte: Rádio Web UFPA








